A atuação dos peritos brasileiros na área da antropologia forense não é um fato recente. Equipes como as do Distrito Federal e de São Paulo apresentam profissionais com experiência em grandes desastres em massa que demandaram a atuação de peritos na área de identificação humana, a exemplo dos acidentes com os aviões da GOL (em 2006) e da TAM (em 2007), respectivamente.
No ano de 2009, a Polícia Federal e peritos oficiais do Estado da Paraíba e de Pernambuco atuaram em conjunto na identificação das vítimas do acidente com o avião da Air France. No ano de 2019, um desastre de grandes proporções ocorreu no Estado de Minas Gerais, com o rompimento da barragem de Brumadinho, vitimando centenas de pessoas e demandando o trabalho conjunto de peritos de Minas Gerais, da Polícia Federal, do Distrito Federal e de outros Estados, que não tardaram em enviar esse suporte especializado.
Importante ressaltar que nenhum trabalho na área pericial pode ser desprovido do caráter científico. Por esse motivo, antropólogos forenses em todo o mundo criaram organizações ou associações científicas específicas, de maneira a serem discutidos temas e protocolos de interesse para o constante aprendizado e aplicação dos melhores métodos na prática pericial.
Associações internacionais como a AAFS (American Academy of Forensic Sciences), fundada em 1948, a FASE (Forensic Anthropology Society of Europe), fundada em 2003, a ALAF (Asociación Latinoamericana de Antropología Forense), fundada em 2003, o RAI (Royal Anthropological Institute), fundado em 1871, e a AEAOF (Asociación Española de Antropología y Odontología Forense), fundada em 2006, são exemplos de entidades que já existem há algum tempo e congregam um grande número de associados, sendo referências na área.
Apesar da inconteste experiência e expertise dos peritos brasileiros em antropologia forense, apenas em 19 de setembro de 2012 foi dado o passo fundamental para que esses profissionais se congregassem e fundassem a Associação Brasileira de Antropologia Forense.
Previamente à fundação propriamente dita, a ABRAF nasceu do sonho e do crescente interesse de união de alguns profissionais, de maneira que a antropologia forense passasse a se desenvolver e crescer cada vez mais no país, tendo sempre um lastro científico. Nesse sentido, importante destacar a atuação proativa de Marcos Paulo Salles Machado (primeiro presidente da ABRAF, de 2012 a 2014), Aluisio Trindade Filho (presidente da ABR AF de 2014 a 2016) e de Malthus Fonseca Galvão (presidente da ABR AF de 2016 a 2018), no sentido de elaboração e registro do estatuto da associação, passo essencial para seu nascimento, que conta hoje com 140 associados de todo o Brasil e, também de outros países, e que está sob a presidência de Yara Vieira Lemos (biênio 2020-2022).
A cada dois anos, a ABRAF oferece aos seus associados e à sociedade em geral o Congresso Nacional de Antropologia Forense (CONAF), momento de ricas trocas de experiência e possibilidade de atualização científica para todos os que trabalham na área. O primeiro CONAF ocorreu no ano de 2014, na cidade do Rio de Janeiro. Em 2016, a segunda edição do CONAF ocorreu na cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, e, em 2018, foi a vez de João Pessoa, Paraíba, sediar a terceira edição do Congresso.
Um outro passo fundamental e muito desejado por todos os que fazem essa associação era a publicação de uma revista científica que fosse vetor para a divulgação das pesquisas e das experiências em antropologia forense no Brasil.
Dessa forma, em 2020, surgiu o Brazilian Journal of Forensic Anthropology and Legal Medicine (BJFA&LM). Com a revista, pretende-se oportunizar publicações de qualidade que venham a contribuir para o crescimento científico dos profissionais brasileiros, bem como permitir que pessoas de outras nacionalidades conheçam o que está sendo produzido no Brasil e, igualmente, possam divulgar na revista resultados de suas pesquisas.
(Texto retirado do capítulo 2 do Tratado de Antropologia Forense – 2021)